23.3.09

Discriminação: Aprender a Combatê-la

"São tantas as batalhas. É tão funda a dor. São tantas as imagens de abandono e desamor. Há gente caída no chão, sem ninguém que os abrace antes da escuridão" - uma frase da letra "antes da escuridão" de Mafalda Veiga. Uma frase que revela o abandono proporcionado pela discrimiação que realizamos diáriamente, muitas das vezes sem nos percebermos que a realizamos.
"Jovens contra a Discriminação" foi o tema do encontro que reuniu mais de 30 jovens, em França, vindos de vários paíse europeus. Alojados numa casa meio-arruinada, meio-clandestina onde permanecemos durante mais de uma semana para trabalharmos questões sérias acerca da discriminação através de uma dinâmica de educação não-formal.
O Grupo
A língua base de entendimento mútuo entre todos foi o inglês, embora nos pudessemos entreter a tentar falar um pouco de lituano ou grego. No entanto, a forma universal de entendimento foi sempre, mas sempre a língua gestual.
Primeiramente, os temas foram apresentados através de teatros exemplificativos dos vários tipos de discriminação mais evidentes por países. Daqui ressaltaram grupos de trabalho para os dias seguintes onde, em pequenos grupos, se debateram questões relacionadas com as dicriminações sociais (entre ricos e pobres); discriminações raciais (imigração) e discrimações sexistas (homem/mulher/gay/lésbica).
Discriminação Social
Discriminação Racial
Discriminação Sexista O interessante desta experiência europeia, para além de reflectirmos e debatermos sobre um tema comum e aprendermos que cada um pode criar situações de discriminação na vida quotidiana, e que a discriminação existe em diferentes países e em diferentes realidades; foi podermos desenvolver conhecimentos artísticos entre os participantes, a fim de construir um workshop sobre discriminação, evento este aberto à comunidade local de Rochefrort-en-Terre.
A actividade final dos diferentes grupos de trabalho consistiu, então, na apresentação pública, num bar da região (Café de la Pente - um bar freak, alternativo e com espírito comunitário), à comunidade local, de actividades que tinham como referencial a comunicação internacional através das artes (dança, performance, mímica, música, teatro, jogos etc.) para que a população local, de características conservadoras, pudesse compreender o motivo da permanência destes “estrangeiros” na sua terra. De toda esta experiência, saíram trabalhos bastante interessantes. Apesar das dificuldades de descoberta de competências, o empenho de cada um foi tal, que pudemos contar com a comunidade de Rochefort-en-Terre em peso para nos ver a representar. Jornalistas e presidentes de associações contra a discriminação estavam presentes. Foi o momento auge, de uma semana de esforço, aprendizagem e empenho.
Uma das Perfomances
Jornalistas em observação Alguns dos "actores"
Sem dúvida que não irei esquecer esta experiência de interculturalidade que tanto me fascina e move a partir vezes sem conta do meu próprio país. São experiências como esta que marcam pelo valor afectivo trocado com outros estrangeiros que partilharam a mesma dimensão que a minha: a luta por um mundo mais igual. Afinal, faço parte de grupos minoritarios que são discriminados diariamente. E tu, também não farás parte?

22.3.09

As Lojas de Rochefort-en-Terre

Rochefort-en-Terre pode ser uma pequena vila, comparativamente com o "meu mundo" onde diariamente habito. Mas a nível de lojas, estas apresentam-se como entusiastas e diferentes daquilo a que estou, normalmente, habituado a observar.
São lojas castiças, pequenas, bem-decoradas e, algumas delas, com temáticas retrô: as lojas dos chapéus, das luvas, e pequenas retrosarias. Mas a arte e a cultura estão também presentes: lojas de artesanato, de exposições, livrarias fazem parte desta vila.
A originalidade de cativar o publico-alvo encontra-o na forma como publicitam o seu comércio: através de letreiros originais e, maioritariamente, pintados à mão colocados por cima da porta de cada loja.
Olaria(esq.)____Café da Ponte (dir.)
Loja de Bijuteria (esq.)____Loja dos Chapéus (dir.) Loja de Exposições (esq.)____Padaria (dir.)
É por tudo isto que esta terra é mágica. E não tenho dúvidas de afirmá-la como sendo "Terre Happy"...

Intercâmbio em Rochefort-en-Terre

Entre os dias 31 de Agosto a 8 de Setembro de 2008, parti em direcção a Rochefort-en-Terre, uma terrinha no meio do nada, com pouco mais de 600 habitantes, situada perto de Redon, na Bretenha, em França. O objectivo: participar no intercâmbio juvenil "Youth in Action Against Discrimination", juntamente com outros jovens provenientes de Espanha, França, Grécia, Itália e Lituânia.

O Centro da Vila

Na manhã seguinte à minha chegada, saí de casa para ir decobrir esta vila lindíssima. Rochefort-en-Terre não tem muito para ver, diga-se, uma vez que tem, única e exclusivamente, uma rua principal, onde se encontram as lojas de artesanato, de arte e sabonetes.
Estamos perante uma vila medieval, toda de pedra, com casas e calçadas antigas mas requalificadas. Somos, imediatamente, cativados pela simplicidade das ruas e ruelas estreitas e sinuosas. Algumas casas mantêm, ainda, os seus telhados negros e a fachada original de madeira. Mas uma coisa que me impressiona nesta vila é que nada (mas nada mesmo) parece estar fora do lugar! Há flores de várias cores em várias floreiras e recantos espalhados pelas ruas, e por todo o lugar que passemos há varandas, portas e fachadas de casas repletas de cores vivas, e é por isso que Rochefort-en-Terre é considerada uma das melhores vilas florais de França.

As casas típicas medievais da vila

Enquanto circulo pelas ruas consigo sentir, no ar, o cheiro agradável a biscoitos acabados de fazer... quetinhos! Descubro que na vila há várias casas destas de biscoitos caseiros de vários feitios, tamanhos e sabores. Entro numa delas e, após meia hora, saio com duas caixas metálicas e três sacos de papel repletos de bolos e bolinhos...
Esta terra faz-me lembrar uma terra encantada. Por onde quer que ande há sempre símbolos que me transportam para um local mágico, de fadas, duendes, gnomos, caldeirões, bruxas, ervas e poções mágicas, florestas, sábios, e magos. Nas lojas que entro, nas ruas que passeio ou nas pessoas que encontro há sempre algo que me faz ter esta sensação. E não é apenas porque vejo. Mas é porque sinto!
Uma vila cheia de magia

20.3.09

Viajar de TGV com Um Sorriso na Cara

No verão de 2008, mais precisamente no início do mês de Setembro, parti em Direcção a Rochefort-en-Terre, em França, para poder participar num intercâmbio de jovens. Após ter chegado ao aeroporto de "Charles de Gaulle", em Paris, tive de esperar cerca de 4 horas para poder apanhar o famoso TGV (do francês: train à grand vitesse), o comboio a grande velocidade, um verdadeiro símbolo nacional em França, e como dizem, até ao momento é o comboio de maior sucesso na Europa.
A viagem até Rennes, capital histórica da Bertanha, demorou aproximadamente mais 4 horas, após 4 horas de espera. Sim, isso mesmo! 4 horas para chegar ao destino! Um comboio a grande velocidade que demora tempo e tempo e tempo para nos levar onde queremos. Por isso questionei: onde estará a "grande velocidade"? Para ser muito sincero não sinto grande diferença na velocidade entre um TGV e um comboio da linha de Sintra. Talvez esteja a exagerar, claro, mas a diferença não é lá muita.
Ia com tantas expectativas que pensei, deveras, poder andar agarrado ao assento do comboio, com os dedos metidos dentro do banco, os dentes cerrados, os cabelos ao vento e os olhos semi-cerrados devido à grand vitesse. Mas não... nada de extraordinário. Talvez as boas comodidades distrairam a minha mente de tal forma que nem dei conta de ir a extrema velocidade.

Mas uma diferença senti entre o TGV e os comboios da Linha de Sintra: os revisores! Alegres e bem dispostos que bem se distanciam das caras cizudas dos nossos portugas. Imaginem um revisor-palhaço que distribui balões às crianças, que se mete com as velhas parisiences que trazem baguetes debaixo dos sovacos cheios de pêlos, que fazem truques de magia e distibuem sorriosos e olhares esbugalhados. É realemnte fantástico!

Talvez não tenha sentido a velocidade porque durante muito tempo me tenha distraído com estas pequenas coisas.... talvez! E adorei!

26.2.09

Matt Harding, O Dançarino Viajante

Matt Harding era um programador de jogos na Austrália, quando em 2003 decidiu que precisava fazer algo mais. Deixou o emprego e resolveu viajar pelo mundo.
Fez as malas e com suas economias partiu para a Ásia. Pouco tempo depois criou um site para a família acompanhar a viagem pelo mundo fora. Um dia, um amigo de viagem pediu para o Matt fazer uma dança, enquanto ele filmava os locais por onde passavam. Em cada país visitado, sempre com a mesma dança. Ao regressar de viagem, o vídeo com a dança engraçada foi colocado no YouTube e começou a ser assistido por um, depois outro e outro e outro......... e acabou por já ter sido assistido por mais de 10 milhões de pessoas na Internet! Matt já viajou por mais de 70 países, e não vai parar tão cedo. Uma empresa de chicletes resolveu patrocinar as suas viagens e a partir daí ele passou a convidar os internautas pelo site wherethehellismatt.com a participarem dos vídeos. Ele apenas dança! Muito bom! Um dia farei o mesmo…

O Mundo é Um Livro

"O mundo é um imenso livro do qual aqueles que nunca saem de casa lêem apenas uma página"
- disse o filósofo e teólogo Agostinho de Hipona.
E é desta mesma forma que, também eu, vejo a vida! E se não a visse desta maneira, jamais poderia contemplar pores-do-sol como este. Basta partir... para longe ou perto!

25.2.09

Cascais: Vivê-la de Forma Diferente

Enquanto vasculhava o meu PC no sentido de dar-lhe alguma organização, percebi que, por entre fotografias que fui tirando de algumas pequenas e grandes viagens que realizei, algumas delas não tive tempo de postar no Blog. No entanto, há esta pequena viagem que me faz reviver grandes bons momentos de forma nostálgica: Cascais. Todos os dias viajo por Cascais, por ser o local onde trabalho. Mas, certamente, essas são outras viagens, um pouco mais vanguardistas pela Cascais Rural, pobre, deserta, feia, fúnebre, desolada e muito pouco conhecida. Sim… por esta Cascais viajo eu diariamente, na qual sou capaz de saber cada cheiro, pormenor e detalhe ínfimo de outras paragens, movimentos e Carnavais! Mas a outra Cascais que me faz remexer alguns bons sentimentos quando olho para cada uma destas fotografias é, sem dúvida, a Cascais Litoral. 24 de Agosto – Sábado Dias antes combino com um grupo de amigos um dia diferente, cheio e cultural. Um dia para ficar na memória. Talvez ficasse apenas na minha, não sei, mas isso não interessa. O que queria mesmo era poder deixar um pouco as amarras do trabalho e viver esse sol que brilha e que, sem darmos por isso, não o aproveitamos convenientemente. São momentos para os quais não estamos alerta e atentos. E assim deixamo-nos levar. E não inovamos. Por tão pouco…
Embarcação "Estou para Ver"_Cascais
Sim. Por apenas 1.75€ pudemos desfrutar de um passeio de Barco à Vela e a oportunidade de navegar ao longo do litoral da costa Cascais/Estoril, na embarcação tradicional “Estou para Ver”, convertida de um antigo Galeão do Sal do início do Séc. XX, cuja capacidade é de 35 passageiros. Com os coletes vestidos, a entrada no barco fez-se rápida. E partimos… A duração da viagem permitiu saborear um momento diferente de contacto com a natureza.
Lembro-me de, lá ao fundo, ver a costa e pessoas em poses veraneias a passerem-se pelas praias da linha. Lembro-me da sensação de estar a navegar e de poder ajudar no içamento das velas. Lembro-me de alguns salpicos da água em direcção à cara e a frescura que isso me transmitia. O cheiro a maresia. A frescura de um calor, de verão matinal, insuportável. A sensação de leveza e de desfrute da paisagem. Lembro-me... Andar de barco não foi novidade para mim. Já muitas outras viagens fiz de barco e em países estrangeiros. Mas talvez esta tenha-me sabido a vida.
Da parte da tarde passeamo-nos pelas ruas conhecidas e outras nem tanto da pequena vila. Caminhamos pelo litoral junto à costa, seguindo parte do percurso que fizemos da parte da manhã, mas agora com as atenções voltadas para outros que se aventuravam na embarcação. Encontramos uma esplanada de frente para o mar. Chapéus-de-sol por cima de nós, coca-colas frescas com limão presas à nossa mão, sorrisos, animação e uma boa conversa entre amigos fizeram as delícias da parte da tarde. São momentos assim, simples, e com esta carga de boas recordações, que me fazem querer viver intensamente a vida. Ela é senão para ser enchida com pequenos momentos que preenchem recordações. E ao olhar para trás, quero um dia poder dizer: “Vivi!” e alegrar-me com isso! O final da tarde aproximou-se lentamente. E sem perdermos a alegria rumámos à praia, sentir os últimos raios de sol a baterem quentes em cada pedaço de pele do nosso corpo. Tomamos banho e alguns de nós adormecemos. E ali ficamos até já não podermos mais… E para terminar o dia, nada melhor do que poder usufruir de Fados, numa noite quente da baía de Cascais, cantados alegremente pela fadista Ana Moura. Eram centenas as pessoas que, atentamente, fixavam os seus olhares na voz arrepiante que ali se encontrava à nossa frente. E assim como eles, deixámo-nos arrepiar. Uma e outra vez… num momento único como este, selado com fogo de artifício no final da actuação.
Descobrir a novidade na rotina foi, sem dúvida, descobrir pérolas nesta Cascais conhecida. O segredo é estar atento…

18.2.09

Optimismo Contagiante

Esta imagem vale, certamente, mais do que mil outras palavras... Apenas momentos de um optimismo contagiante, de chorar até às lágrimas em frente à Ilha do Pessegueiro.
(Da esq. para a dir. - Nuno, Carlos, Susana, Renato, Nuno e eu)

Viver o Festival de Músicas do Mundo

Sim!
Estive lá!
Estive. Vivi. E experenciei o que o FMM08 teve para dar.
Para quem não conhece, o FMM pode ser enquadrado na área da “world music”. Da tradição ao jazz, da folk aos blues, do tango ao reggae, da clássica à fusão, é sobretudo um festival de música sem fronteiras de género. Afinal, é sempre a multiculturalidade que me fascina. Não mais senão o fascínio pelo desconhecido e pelo diferente.
Num mundo cada vez mais igual, em que todos pensam da mesma forma e em que os valores são globalizados a um ritmo alucinante (e sem se questionar), deixamo-nos, por vezes levar, no mundo da ilusão. Afinal, que poderá haver de mais belo senão a diversidade, a diferença, o despreconceito e o encontro? É isto que se encontra no FMM!
Este ano, o FMM assinalou 10 anos com o programa mais extenso da sua história. Foram 40 espectáculos e iniciativas paralelas repartidos por quatro palcos montados na aldeia de Porto Côvo -junto ao Porto de Pesca – (onde estive) e na cidade de Sines. O número de espectadores estimado em 85 mil pessoas, o mais alto de sempre! E como viver é ser livre, nada melhor do que ter feito as bagagens, agarrar em companheiros de viagem e montar estacas no chão à luz dos faróis do carro numa noite escura, para conseguir montar tendas. A vida de simplicidade que vivemos estes dias de festival permitiu-nos estar longe de tudo aquilo nos preocupa no dia a dia.

As ruas de Porto Covo foram invadidas por freaks e alternativos que no chão da calçada faziam as suas estadas, vendas e pernoitas. Brincos, pulseiras, anéis, quadros, roupa, bolsas entre outros, foram os artigos mais expostos, visto e remexidos por todos nós. Gente pelas ruas acima. Gente pelas ruas a baixo. Este foi o movimento de Porto Covo entre o festival, a praia, e as esplanadas que quer de noite ou de dia se faziam cheias.

De dia, pessoas aglomeram-se junto à praia onde cada pedaço de areia é equivalente a um punhado de ouro e onde se disputa por uma conquista ao sol. E olhem se eu também gosto, e, tenho a certeza que, renhidamente, conseguiria ganhar o meu! Mas preferimos, ir até à Ilha do Pessegueiro, "roer uma laranja na falésia". Ou melhor que isso... divertirmo-nos junto a ela.
- "1...2...3... AGORA" - dissémos tantas e tantas vezes uns aos outros, ao mesmo tempo que carregavamos no botão de disparo da máquina fotográfica, enquanto os objectivados pulavam desalmadamente na tentativa de ficar alguma fotografia de jeito.
- "mais uma vez... vá lá.... 1...2.... AGORA" - a estratégia agora era outra. Saltar antes de do disparo. E por entre estratégias, tentativas e erros conseguimos que algumas delas fossem minimamente dignas de serem publicadas. Este é o resultado de um fim de tarde junto à falésia...
A noite quente faz emergir em qualquer ser humano um olhar para a rua de outra forma. Um olhar que se cruza com os outros numa tentativa implícita de contacto e de conhecimento. Momentos antes dos concertos apinham-se pessoas à porta a comprarem CD’s a preços “low cost” numa tentativa de memória futura de relembrar músicas e momentos como aqueles em que vivemos durante todos os concertos. Somos livres. E dançámos livres, a sentir cada nota de música a ressoar em nós. Notas diferentes. Músicas nunca ouvidas. Pessoas aglomeram-se à nossa volta. E em conjunto, como nunca tentativa de contacto dançamos como expressão mais bonita de comunicação. Cada um ao seu ritmo, como sabe e sente… uma e outra nota.
No entanto, Asha Bhosle foi a esperada, por mim, relativamente a todos os concertos. Uma velha de 75 anos, mas não caquética. Com mais de 13 mil canções gravadas e participação em mais de 950 filmes de Bollywood, na Índia, surpreendeu qualquer um de nós que ali este presente pela sua expressão, contacto e relação que conseguiu estabelecer. Não houve pé que ficasse no chão e mão que não tivesse no ar. Só quem esteve presente sabe do que falo. E afinal, para viver não é preciso só idade. Ela é certamente a prova viva disso: voracidade, garra e alegria contagiante…
Asha Bhosle

27.8.08

Desarmado. Mas Um Dia Eu Irei!

Imagina-te a planear uma das viagens da tua vida. Consegues?
Com toda a garra e determinação. Tens um ano para o fazer. Sentes que tens tempo mais do que suficiente para preparar tudo com afinco sem nunca ir demasiado aos pormenores, porque o interessante da viagem é esta base: a aventura!
Sem locais de pernoita, apenas as passagens de avião compradas e o itinerário mais ou menos traçado podendo ser alterado se assim o desejarmos. Comboio, camioneta, bicicleta ou riquexó tanto faz. O que interessa, verdadeiramente, é este espírito de aventura que te envolve numa vivência única de entrega ao mundo. Queres senti-lo. Queres viver cada momento e ter uma montanha de acontecimentos bons ou maus para poderes recordar, fora da imagem idílica de uma viagem turística, onde os bilhetes e percurso são comprados por uma agência, e te encaixotam num resort igual a outro na ponta oposta do mundo.
Durante meses trabalhas nesse mesmo sonho. Tens alguém para te acompanhar nele. Que bom que é partilhá-lo! Crias expectativas e começas a sonhar com as inúmeras possibilidades de acontecimentos susceptíveis de acontecer. Há dias que te ris disso. Outros, sentes algum receio. Receio, pela aventura que poderá não correr pelo melhor porque os perigos tornam-se iminentes: roubos, doenças, perda de comboios, dormidas na rua com saco cama em plena monção. Mas apesar de tudo aquilo que vais sentido, acreditas numa história que sabes que ficará para sempre a borbulhar viva e intensamente dentro de ti - por teres concretizado esse teu sonho. Sabes que o atingiste e por mais que vivas e experiencies outro tipo de situação semelhe, “aquele” foi o auge! Foi o momento. O grande momento! E nessa expectativa começas a preparar tudo. Pedes à tua entidade patronal um mês inteiro de férias. Com alguma relutância, conseguem organizar os horários dos funcionários para poderem dar-te o tempo que queres para poderes aceder a um egocentrismo teu. Compras os guias de viagem e devora-los em menos de nada. Leva-los para todo o lado e em qualquer parte aproveitas para beber um pouco mais dessa cultura, ao ponto, de chegares a sentir a própria cultura e costumes. Tens alguma dúvida se conseguirás habitua-te a ela. Mas não pensas muito nisso. Continuas a devorá-los à mesma.

Começas, então, a organizar a tua vida em função da viagem que queres fazer. Deixas de sair com alguns amigos e fazes alguns “cortes” nas tuas despesas. Começas a poupar em tudo o que podes para poderes ter dinheiro suficiente para te manter um mês fora do teu país. Fazes ainda alguns sacrifícios maiores. Mas sabes que não te vais arrepender. Disso tens a certeza.

Falas aos amigos, familiares e colegas de trabalho desse teu sonho. Respondem que és maluco em fazeres esse tipo de viagem. Ris-te. E sabes que sim. Que tens um certo grau de loucura entranhado em ti, mas não te importas.

Perdes tempo em questões necessárias e práticas no planeamento e organização da viagem. Telefonas para as seguradoras no sentido de te precaveres de alguma doença que te possa assolar e que rapidamente terás de ser transportado de urgência para Portugal. Fazes várias simulações e tentas perceber os vários preços que se adequam melhor aos teus receios. Contactas também com o teu médico de família. Pedes-lhe informações. Ele manda-te fazer algumas análises. Tiras sangue e percebes se ainda tens alguma imunidade perante algumas doenças. Receitam-te a terapêutica e encaminham-te para o Instituto de Higiene e Medicina Tropical para uma “consulta do viajante”. Falas com amigos de amigos que também já realizaram uma viagem semelhante e ao mesmo país que tu. Crias ainda mais expectativas ao ouvires com um sorriso enorme tudo o que te contam. Marcas cafés com esses amigos, onde em cima da mesa no Adamastor, em Lisboa, começas a desdobrar o mapa e a delinear possibilidades de itinerários. A cada dia que passa começas a conhecer melhor essa cultura. Investigas. Procuras. Vives da net e deixas horas de sono por serem dormidas. Estás impelido a viver dessa forma, pois como dizem “o sonho comanda a vida”. Começas a iniciar algumas compras necessárias para tal: desde a pequena lanterna, passando à almofada para colocares no pescoço enquanto viajas horas a fio de comboio. Compras uns óculos de sol novos, mesmo sendo comprados no Centro Comercial Mouraria. Compras também o líquido para as lentes de contacto, numa dimensão que possa passar pela alfândega no avião. Investes em roupa fresca e t-shirts de algodão como indicam os guias de viagem. Empenhas-te numa máquina fotográfica de mais de 500 euros, para poderes captar os momentos da viagem da tua vida. Como mochileiro que és, já tens a tua própria mochila, velha, rota e desgastada, que só tu mesmo dás valor por ter ido viajar contigo já por tantos outros lugares. Investes numa outra, e compras mais uma mochila pequena para transportar os pequenos haveres: comida, guias e mapas, uma camisola para o frio, dinheiro, documentos e uma pequena garrafa de água. Chegas ao ponto de realizar uma pequena lista com tudo aquilo que tens de levar e com tudo aquilo que te falta comprar, e chegas ainda ao ponto de teres o teu itinerário escrito numa tabela que contem os dias, os locais de passagem, de pernoita, os números e nomes dos comboios a apanhar, o nº de horas de viagem, e pequenas observações.

Hierarquizas prioridades poucos meses antes de partires. O tempo avança! Sabes que tens de comprar primeiro as passagens internas – uma vez que as restantes viagens já estão compradas - depois dar uma vista de olhos pelos horários de comboios e camionetas da comunidade local, seguindo-se a vacinação, os seguros e a digitalização dos teus documentos para poderes enviar por e-mail para ti próprio caso percas ou te roubem a tua “papelada”. O período de férias inicia. Deixas de fazer aquilo que realmente gostas – viajar com os amigos – porque já tens a tua própria viagem marcada, pensada, envolta em sentimento, afectividade e expectativas. Os teus amigos vão para fora em pleno verão. Uns voam até Sydney, outros Barcelona, Madrid, Sesimbra, Algarve, Odeceixe… todos te convidam para poderes ir com eles. Sorris e dizes que estás a juntar dinheiro e que não podes mesmo. Respondes com um brilho nos olhos: “Vou para a Índia! Um mês!” . Rejeitas qualquer hipótese de ir para outra parte do mundo. Afinal… sonhos são sonhos! A duas semanas de partires, telefonas ao teu amigo que irá fazer essa mesma viagem contigo para delinear as últimas questões. Sentes na voz dele que algo se passa. Mas não ligas. Responde-te, apenas que não poderá ir ao teu jantar de aniversário. Não questionas. Mas segue avante na conversa, e diz que teve a pensar melhor e que “ponderou a situação” e que não irá à INDIA!!!!

No momento, ris-te, capaz de soltar valentes gargalhadas com a situação. Depois de perceberes que é bem verdade, após dizer-te: “vai tu… porque não vais sozinho?”, percebes efectivamente que não vai, e nesse momento, a tua expressão facial muda completamente, das gargalhadas para uma cara gélida, branca, estarrecida e sem perceber bem os porquês da atitude, por mais desculpas que dê ou argumentos que utiliza. Ficas assim… nada mais, nada menos que perdido, sem saber o que fazer. Começam a fervilhar em pensamentos. Muitos, e ao mesmo tempo na tentativa de remediar a situação. Começas a ponderar em convidares outras pessoas para irem contigo à tão desejada viagem e percebes que todos os teus amigos já tiraram os dias de férias e que um mês é muito para eles. Percebes que uma “viagem-aventura” como esta requer no mínimo duas pessoas - por mais louca que ela seja - para no caso de roubo ou doença, estar acompanhada, e que por isso não podes ir sozinho. Compreendes ainda que viagens low cost não te devolvem o dinheiro, nem te permitem direccionar a viagem para outra rota, ou encurtar os dias de viagem. Todas as alternativas estão em jogo. E pensas. E continuas a pensar. Os dias demoram a passar porque não consegues fazer mais nada se não pensar. E continuas a não acreditar no que te aconteceu. Sentes uma confiança traída e que, nesse preciso momento, encontraste-te cara-a-cara com a desilusão. Completa! Afirmam-te que te pagam a viagem, pelo sucedido. Mas questionas as expectativas criadas; questionas o tempo gasto em leituras, em dias perdidos na Internet, em telefonemas realizados para a Embaixada, em horas de sono perdidas, o tempo perdido em filas de espera, na realização do planeamento da viagem, na realização dos cartões de crédito, num ano de preparação!!! E isto? Não se contabiliza? Certamente que para além do que é físico, hoje em dia poucas pessoas conseguem perceber que mais importante que esse real – o material, existem valores: a confiança, o compromisso, o respeito, e acima de tudo, a amizade que são, certamente, basilares na construção da integridade humana.

Confrontas-te, então, com a inutilidade, e “amarrado” resta-te apenas ficar um mês por casa! Não acreditas… e recusas a acreditar apenas nessa possibilidade, para quem tem sangue de mochileiro. Olhas para trás e percebes que no que poderias ter feito e não fizeste, no que poderias ter ido e não foste, no que poderias ter comprado mas não compraste, no que poderias ter estado mas não estiveste! Feliz daquele que não espera nada, pois não terá desilusões! Mas com isto uma grande aprendizagem. Cheio. Repleto. A transbordar dela… Alguém quer um pouco desta aprendizagem? Dá-se! É grátis e sem dúvida valiosa!

4.8.08

8. Á Beira do Rio Thames

Foi à beira do Rio Thames que passamos o último dia em Londres. E por incrível que pareça foi, precisamente, também no último dia que vimos o brilhante Big Ben – o relógio pelo qual o mundo rege as suas horas. Saímos do metro e por entre a neblina que caracteriza a cidade de Londres, vejo o Big Bem ali mesmo à minha frente. Olho à volta e pessoas de todas as partes do mundo fotografam-no. Penso por momentos que talvez este possa ser o monumento mais fotografado do mundo. Quem sabe?
Big Ben_Londres
Retiro também da bolsa a minha máquina fotográfica e de várias posições, de vários ângulos, contrastes, luzes, com ou sem pessoas na rua, fotografo-o também. É sem dúvida um monumento brilhante que à beira do Rio Thames, e envolto pela “Casa do Parlamento” e pela “Abadia de Westminster” emerge, simples e exuberante.
Rio Thames

Westminster Abbey

Atravessámos a ponte por várias vezes, correndo ensopados da típica “chuva molha tolos”. É assim Londres: Imprevisível. Sol esplendoroso nos primeiros dias de viagem e chuva e neblina o resto do tempo… Desprovidos de qualquer protecção a não ser os jornais gratuitos que apanhamos em qualquer parte da rua, protegemo-nos como podemos até poder chegar da estação de autocarro que desejamos. Entramos nas lojas descaradamente para não comprar nada. Olhamos lá para fora, a chuva passa, e vislumbramos o nosso autocarro a aproximar-se. Saímos apressados das lojas, ficando as empregas a olhar para nós como se tivéssemos desviado algo. Acenamos com o dedo em riste e dizemos que não o podemos perder, e vamo-nos embora sorridentes, para o autocarro. A semana correu basicamente desta maneira. Uma boa estratégia para quem está desprovido desde tipo de tempo!! Mas esta foi umas das minhas viagens que tenho a certeza que irá ficar marcada pela simplicidade vivida, e ao mesmo tempo, pela alegria vivida. Recordo e vejo apenas alegria. Risadas, aproveitando o máximo dos bons momentos: Percorrer museus meia hora antes de fechar e ver na “National Gallery” e na “Tate Modem” obras como as Van Gogh, Caravaggio, Rembrandt, Leonardo DaVinci, Botticelli, Michelangelo, Velázquez, Monet, Seurat, Cézanne, Pablo Picasso, Alberto Giacometti, Joan Miro, entre outros, em menos de 15 minutos, correndo pelos corredores fora, com o mapa na mão do museu, é obra. Comprar pão, queijo e Iogurtes líquidos numa mercearia 24 horas aberta perto de casa, para tomar o pequeno-almoço na rua (literalmente na rua) e em pé, enquanto um abre o pão, o outro coloca o queijo dentro do pão e distribui pelos elementos do grupo, é vida! Viver é também experiênciar uma noite perdida entre autocarros nocturnos, realizando os mesmos percursos vezes sem conta sem percebermos o porquê, e rir com isso!

Piccadilly Circus

Viver é ficar uma tarde inteira numa esplanada em frente ao Thames e ver o anoitecer. Viver é caminhar sem rumo como fizemos várias vezes e descobrir caminhos jamais percorridos pelos turistas. Viver é perdermo-nos e ter medo de não encontrar os amigos. Viver é comer comidas manhosas apenas para experenciar a cultura local e ficar de caganeira! Viver é subir a estátua da praça central em “Piccadilly Circus” para poder tirar uma fotografia. Viver é prometer voltar ao local anterior para comprar os Souvenirs finais e partir para Lisboa sem nenhum souvenir. Viver é dizer, sem intenção, a um turista que deve apanhar um maranhal de autocarros e metros para determinado local quando o mesmo se encontra atrás de nós. Dos bons momentos desta viagem fazem também parte a tentativa de streaptease realizado no varão do metro da estação de “Liverpool Street”. Do jogo “um limão meio limão” realizado num bar chique de “Soho” e de rirmos estridentemente ao ponto da Susana ficar envergonhada e retirar-se da mesa. Fazem também parte a tentativa frustrada de nos sentarmos nas MARAVILHOSAS cadeiras de pano de “St. James Park” e de sermos expulsos delas por ter de se pagar, sentando-nos por fim, nuns bancos de madeiras DUROS COMO UM RAIO mas deslumbrando o final do dia com um pôr-do-sol fantástico. Relembro ainda termos dado um BALÚRDIO de dinheiro no Museu da Ciência para andarmos num simulador e sairmos todos de lá a correr para a casa de banho devido à má disposição. Enfim… foram momentos bons, únicos e irrepetíveis. São estes que constroem a minha vida, fazendo também dela algo única.